quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Sniper

Cansada, suava. Estava aliviada, porém. A pilha de roupas estava próxima do final. Seus braços doíam. Os ferros novos eram leves, mas a repetição do trabalho fazia mal para o braço. Todavia, não tinha com o que se preocupar. A pilha já não era tão grande como fora duas horas atrás. Mesmo com a televisão ligada na novela repetida da tarde, passar roupas era sempre um esforço demorado e entediante.
Era enquanto passava uma cueca de seu marido que o telefone tocou.
-Alô.
-Alô. Não se mova.
-Quem tá falando?
-Senhora, não se mova. Sou atirador de elite da polícia e a senhora está em perigo.
-Perigo como? - Virou-se para a janela.
-Não olhe!
-Tudo bem... - Voltou-se para a tábua e colocou suas mãos sobre a mesma. - Posso saber o que está acontecendo?
-Senhora. Estamos em negociação com um atirador de elite que está na janela do prédio em frente ao seu. A arma dele está apontada para a senhora, Como ele pode atirar a qualquer momento estou conversando contigo. No seu prédio já temos um atirador preparado. Caso não possamos pará-lo. Atiraremos.
-Mas por quê isso?
-Estamos tentando descobrir. Foi uma denúncia anônima.
-Mas por quê eu?
-Não sabemos... A senhora tem algum inimigo? Alguma dívida de jogo? Algo do tipo?
-Não... Não tenho.
De certo não tinha. Mas ao ouvir falar de dívida de jogo pensou no marido. Filho da puta, estaria ele se envolvendo com jogos de azar novamente? Saindo com prostitutas. Talvez devendo para alguém da noite. Realmente, havia notado atrasos, cada vez mais comuns. Sem vergonha. Depois de doze anos de casada, morreria ali, com as mãos na tábua de passar, com uma cueca em sua frente. Para quantas vagabundas aquela cueca já não teria descido? As raízes de seu cabelo já estavam aparecendo. Para isso o canalha não tinha dinheiro. Para as putas da rua, porém ele tinha. Trocara o carro recentemente. Ela estranhou. Quando perguntou sobre quanto havia custado, ele apenas respondeu "dei um jeito".
Para trocar a descarga do banheiro que teimava em vazar ele nunca tinha dinheiro, mas "dera um jeito" para conseguir um carro novo. Talvez para desfilar por aí com alguma loira de dezenove anos. É o que os homens fazem. As mulheres têm menopausa. Os homens, aos quarenta querem ter uma menininha, como se fosse um carro novo. Para mostrar pros amigos, para esconder a velhice. Talvez esteja endividado com algum agiota. Tomara dinheiro emprestado para sustentar sua vida de "Beto Rockfeller" e deixara as coisas da casa em segundo plano. Agora ela ia morrer, enquanto isso ele estava em um quarto de motel na Radial Leste com alguma secretariazinha "alpinista social".
Ou será que não? Será que ele havia sido testemunha de algum crime? Ou se estava para ser promovido no serviço e o colega rival, ao invés de ficar até tarde camelando, como o coitado fazia, preferia conseguir sua promoção na bala... Coitado... E o que seria dele sem ela? Ele, que não sabia nem fritar um ovo, mas que conseguia a duras penas pagar as contas da casa, que nunca haviam atrasado. Que a doze anos estava ali, firme e forte, sempre que ela precisou...
Será que ele escondia economias para que finalmente comprassem a casa em Peruíbe que ela tanto queria, e agora alguém estava desconfiado e queria roubá-los. Não entendia nada daquilo. Mas ainda estava lá. Mãos na tábua. A novela acabara e começava um filme.
-Senhora.
-Sim.
-Ele disse que não há negociação. Vai atirar.
-Atira nele então, merda!
-Estamos tentando conversar. Atrasar um pouco. Pra ver se conseguimos invadir o quarto e capturá-lo vivo, para prendê-lo.
-E enquanto isso eu corro risco de vida?
-A senhora pode ficar tranquila. Só não olhe para a janela.
-Por que não?
-Pra que ele não perceba nada estranho.
-Estou a meia hora com uma mão na tábua e um telefone na outra. Isso já não é estranho o suficiente?
-Sim... É... Mas ele parece não ter visto nada de errado. Ainda está esperando.
-Esperando pra me matar? Atira nesse viado, merda!
Um tiro se ouviu. Outro logo em seguida. A mulher caiu no chão. Sentiu sua perna doer... Queimar... Olhou para baixo. Era o ferro que tinha caído quando ela se jogara no chão. Olhou em volta, tudo no lugar. A janela intacta. Pegou o telefone.
-Mataram ele???
-Senhora... qual o número do seu apartamento?
-45...
Silêncio.
-Está tudo bem. O atirador foi morto pelo nosso soldado. Desculpe o transtorno, não sei nem o que dizer...
-Diga homem! O que aconteceu?
-Cometemos um erro terrível... Não sei nem como explicar...
-Não erraram não... estou bem aqui, podem ficar tranquilos...
-A senhora sim, mas... Como posso dizer... Bom... Por um acaso conhece algum familiar da mulher do apartamento 54?

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