Muito bom moço era o filho do dono da papelaria. Aos seus poucos anos de maioridade, era rapaz trabalhador. Desistira de tocar o negócio do pai por vontade de fazer, ele mesmo, sua própria carreira. Trabalhava noite e dia, numa transportadora carregando caminhões e embora o pai lhe oferecesse ajuda, não aceitara mais um tostão sequer depois dos seus dezoito anos. Ainda não começara a faculdade, pois achava um desaforo que a família custeasse seus estudos.
Seu pai, embora o preferisse sob seus próprios olhos, admirava o esforço do rapaz e embora não o apoiasse visivelmente, nutria por ele carinho e aprovação. Fora assim, afinal que este conseguira seu negócio que, embora pequeno, alimentara os cinco frutos do amor com sua senhora.
A senhora esta que era dada aos afazeres de casa e raramente ia à papelaria fora do horário do almoço quando levava a quentinha para seu marido e sua nora, noiva de seu filho tão esforçado.
Linda guria, dos cabelos loiros e rosto corado como uma boneca de porcelana, enfeitava o balcão, atendendo os clientes com polidez, fechando muitas vezes sozinha o comércio e fazendo as entregas de material na escola ao lado.
Semanalmente haviam encomendas da escola, fosse giz, papel, canetas, lápis e qualquer outro utensílio escolar necessário, a guria loira do balcão sempre levava. Entregava em mãos da diretora e marcava em uma caderneta quanto essa devia, para que no fim do mês pagasse a conta.
Era orgulho tanto do pai quanto do filho a moça. Na flor de sua juventude, encantava a todos que a viam passar na rua. Encantara também o professor nessa tarde, quando saíra a diretora para uma reunião de última hora e este fora incumbido de receber o material encomendado.
O professor não era lá um galã de Hollywood, mas tinha em seu jeito educado, porém não exagerado o charme do homem em sua forma pura. Sem afetações desmedidas, mas com uma voz grave e um olhar enigmático chamou a atenção da garota.
Essa sorriu, mas manteve sua discrição, apenas atendo-se ao trabalho a ela incumbido. Marcou, como de costume na caderneta e foi-se pela rua, desfilando os esvoaçantes cabelos loiros.
Havia entre a papelaria e a escola uma casa, e do outro lado da papelaria uma padaria, onde os professores se encontravam para conversar. Daria tudo para que fosse apenas impressão sua, mas a garota sempre notava um rapaz que saía para o quintal quando esta passava em frente à sua casa. Afinal era de se estranhar alguém que lavava o carro religiosamente às sextas feiras em pleno horário de suas entregas semanais.
Naquela tarde, fora à padaria o professor, acompanhado de um colega, o qual também lecionava, e em meio à salários e alunos, a loira começou a fazer parte do assunto. Ele que não a conhecia perguntava ao outro, já mais íntimo das lousas daquela escola qual era a situação desta.
No pouco tempo em que lá lecionava, já eram famosos entre os colegas os contos que se faziam do professor. Homem sério, sem vícios, mas que nutria ímpar encanto pelos terrenos do sexo feminino. Os professores homens apostariam uma perna e um olho que uma professorinha de Ciências, negra bonita com um gingado de mulata nova já havia caído nos encantos e na lábia deste. Ele negava sorrindo.
Com uma malícia lubrificada por um copo de cerveja o colega contou a ele sobre o filho do comerciante. Garoto trabalhador, por quem a menina se apaixonara. Filho de seu patrão, que a buscava toda noite na porta do trabalho e a quem pertencia o par de uma enorme aliança dourada no anular direito da moça. Mas rezava a lenda que este era, embora um rapaz discreto e tranqüilo, demasiadamente ciumento.
O tempo passou sem maiores mudanças. E correu pelo bairro a notícia de que o namorado da garota havia sofrido um acidente em seu trabalho. Caíra da boléia de um caminhão ao carregá-lo e estava em casa, com a perna quebrada. Nada mudou visualmente na rotina da moça. Exceto o fato de que após o expediente esta ia à casa de seu noivo religiosamente.
Numa sexta-feira, porém, quando o filho do dono já estava próximo de se recuperar, o vizinho aproveitou a saída precoce do comerciante e deslizou até a papelaria a fim de cortejar a moça.
Além do fato de que naquela noite, ela não visitou o noivo, o que as bocas maldosas da vizinhança comentavam eram histórias que iam do breve ao explícito. Nada, porém, poderia ser dito desta, afinal se a moça realmente fizera algo, fizera bem feito. A ponto de apenas rumores, mas nenhum fato provado, circularem.
Rumores suficientes para acelerar a recuperação do rapaz e deixá-lo alerta. Como nos outros dias a rotina se manteve, Ele evitou perguntar o que ocorrera. Foi formulando em sua mente planos conspiratórios para atocaiar o Don Juan que expusera suas garras para a noiva, em seu momento de ausência, arranhando sua honra.
Numa noite, sem que ninguém visse, o vizinho voltava da padaria para sua casa, a papelaria já fechada, e o noivo, com os olhos vermelho-sangue surgiu em sua frente querendo satisfações sobre o ocorrido. Este, com uma arrogância desmedida e um sorriso nos dentes dissera que haviam ocorrido mundos e fundos entre ele e a moça.
Tomado da fúria, o noivo não mediu sua força e bateu no rapaz em frente à própria casa do mesmo, a ponto de desfigurá-lo. Ao chegar em casa, deparou-se com a noiva o aguardando e a enxotou, chamando-a de nomes enquanto esta negava chorando tudo o que o outro disse e que ele, agora repetia furioso.
Todavia, o vizinho era filho de um homem influente na prefeitura. O qual, tomando as dores do filho, baixou taxas e caçou a licença da papelaria, levando esta a falência deixando a moça desempregada e fazendo o velho dono voltar ao ofício de gráfico para que pudesse pagar os prejuízos e se aposentasse com dignidade.
Entretanto, a ira é um pecado momentâneo e, depois de um tempo, o apaixonado noivo acabou por perdoar a garota, pois não haviam provas sobre sua traição. Confiou finalmente e cegamente em suas palavras e voltaram à sua velha união, noivando e um tempo depois, casando. Casados, aliás, estão até hoje.
Até hoje também a boca ociosa do povo continua a falar sobre esse caso que agitou as conversas de janela pelo bairro. À boca miúda circulam rumores e hipóteses sobre o caso. Alguns dizem que ela havia ido para casa nervosa e o vizinho contara vantagem para provocar o noivo, apenas. Outros diziam que haviam acontecido encontros secretos e que estes se estendiam até os dias de hoje. Uma sexta-feira, na padaria, os professores continuam tomando sua cerveja. E o professor da voz grave, timidamente diz em voz baixa ao colega.
-Ele eu não sei... Mas eu peguei.