Grande parte de nossas vidas são de contemplação e observação. Mesmo que nem tudo o que se observe se contemple e, assim sendo, muitas coisas sejam contempladas sem se observar, essa história vi de perto, acompanhei e pus minhas mãos à obra quando necessário.
Era eu, afinal, um dos poucos que tinha a paciência necessária para ele. Uma pessoa difícil, talvez negligenciado pelos pais e discriminado pelos colegas. Sempre nutri um certo afeto por esse tipo, como nutro ainda hoje. Ele pouco falava sobre os assuntos recorrentes das rodinhas descoladas da escola. Não ouvia rock indie ou lia goethe e nietzsche. Não era íntimo das revoluções que os vanguardistas tanto falavam. Não era ateu, era católico. E ser católico num meio desses era como ser vascaíno em fla-flu. Era a escória da escória. O lixo que passava pelos corredores como um fantasma enquanto os arautos do socialismo desfilavam seus all stars...
Ela também era normal demais para uma escola que formava as cabeças pensantes. Ela não queria ser uma cabeça pensante. Se conformava em ser um braço trabalhador se isso pudesse dar de comer à sua prole, garantisse a prestação de um carro popular e não a deixasse cair no aluguel. Tinha sonhos modestos, não pretendia ser uma daquelas pessoas que saiam em jornais, revistas ou aparecia na TV. Era negra, católica e morava na periferia da cidade. Tinha consciência que nesse mundo, o básico é a vitória máxima. E sonhava básico.
Também a ela eu nutria um certo apreço. Gente boa e honesta, daquelas que não falava mal da gente por trás. Daquelas pessoas que facilmente admiram a gente e que dá gosto estar do lado. Eu não era dado às vanguardas escolares. Até porque, do dinheiro que meu pai me dava todo mês, não sobrava dinheiro para camisa do Che Guevara e as boinas eram muito caras. Uma vez rasguei uma manga de uma camiseta preta. Achei que ficaria bom. Perdi uma boa camiseta.
Meio que por acaso ambos se conheceram, estávamos em uma roda de pessoas normais, o que funcionava como uma espécie de gueto em meio ao regime socialista vivente. Nós, filhos de operários éramos quadrados demais em comparação àqueles que fariam o socialismo fashion. Nos escondíamos num canto do pátio, tínhamos nosso charme, porém. Ela sempre estava por perto. Ele não.
Falávamos de coisas sem importância. Falávamos sobre a dificuldade de se entrar em Faculdade Públicas, as quais foram feitas para quem precisava, e justamente quem tinha como pagar entrava. Era assunto também falarmos de música... Música normal mesmo... Ouvíamos no disc man. Evitávamos que nos ouvissem escutando Djavan... O fato de nossos problemas domésticos serem parecidos também nos fazia próximos. Pais desempregados. Mãe professora, ganhava pouco... Pai operário... Funcionário Público das partes baixas do organograma... Tinha um do nosso grupo que sonhava ser médico. Ríamos. Não tenho mais contato. Espero que tenha conseguido, mas conhecendo o mundo como conheço, imagino que seja enfermeiro hoje em dia.
Numa dessas conversas, percebi o garoto sentado em um banco, sozinho. Com medo do que os vanguardistas poderiam fazer com ele, chamei-o para participar de nossa conversa. Já pensava no impacto que um "bullying" fashion poderia fazer a ele.
Imaginava ele sentado ouvindo as pessoa o chamarem de "Cafona", "Clichê", "Escravo da Mídia" e outros nomes tão escabrosos. O via correndo pelos corredores, chorando. No dia seguinte estaria de all star vermelho e camisa dos Strokes, seu cabelo no formato da bunda do Tio Patinhas e lápis no olho. No pescoço um lenço vermelho. Tiraria uma foto preto e branca só de seu olho e colocaria em seu msn. Danos irreversíveis. Suo frio só de imaginar.
Enquanto nosso papo sobre o preço do trem continuava a todo vapor, pude sentir no ar a frequencia de um flerte que se formava. Ele comentava sobre as aulas de catequese que ajudava a ministrar na paróquia próxima à sua casa. Ela falava sobre os ensaios do ministério de música. Cantava na banda de sua comunidade. Aos poucos, monopolizavam o assunto. Eu e os outros olhávamos, mas deixávamos. Eram ambos boas pessoas. Católicos, classe média baixa, moradores da periferia e principalmente, humildes, em contraposição à arrogância tão comum.
Nas semanas que se passaram, eu e uma amiga tentávamos persuadí-los a tentar algo.
Ela, no princípio não se interessara mais do que fraternamente pelo rapaz. Ele, se assustara com o simples fato de cogitarem ele com uma menina que, segundo ele, era "fenomenal". Com o tempo ela se acostumou com a idéia. E todos percebiam que ali havia algo. Algo que crescia.
Chegou um dia então que ambos queriam que algo acontecesse. Ele porém tomado pela vergonha deixou passar a oportunidade. Todos nós ficamos decepcionados. Seriam um ótimo casal. Pessoas de bem, trabalhadoras, com sonhos básicos. Afinal os sonhos altos e egoístas são os algozes de muitos relacionamentos. Não era o caso. Ela se sentiu humilhada.
Tentei conversar com ela. Seu orgulho, porém, era resoluto. Não haveria mais chance.
Ele chorou quando lhe dei a notícia. Não mais teria chance.
O tempo passou, e nunca mais a vi.
Vi o rapaz, um ano depois, todavia. Havia se assumido homossexual e era agora uma pessoa feliz com a vida e realizado.
Sem homofobia, afinal, vi sinceridade em sua felicidade. Mas nada me tira da cabeça que a indiferença dela foi o que fez dele gay.
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